A cultura e a tradição constituem parte importante da sociedade por serem a essência que a caracteriza e, também, de qualquer indivíduo que nela participa. Podemos dizer que sem elas o próprio conceito de sociedade seria impossível sendo que estas duas propensões para ritualizar e englobar conhecimentos se transformaram nos alicerces da própria sociedade.
Se entendermos que todos os homens actuam no meio das vivências provisionadas pela cultura e tradição, torna-se imperativo que nelas se encontrem as respostas para os desafios apresentados por uma determina sociedade. Só através do seu estudo aprofundado se encontrarão as respostas a estas questões. Mas será que tal estudo poderá ser concretizado sem um delinear das divergências e convergências entre cultura e tradição? Desta forma somos confrontados com uma questão fulcral que merece ser observada, e após uma investigação cuidadosa, respondida, para que possamos entender melhor o lugar da cultura e da tradição no seio de uma sociedade complexa e em constante mutação.
Este texto visa responder às seguintes questões, a dualidade entre cultura e tradição e o que define um povo?
Cultura e Tradição
A palavra cultura deriva do latim cultura, “cultivar ou cuidar o solo” e traduz os padrões de actividade humana e estruturas simbólicas que incutem um significado e importância a estas actividades. Representa também um conjunto de aprendizagens que quando englobadas num mesmo conceito expressam, o que chamamos ou entendemos como cultura. O académico Raymond Williams afirma: “Culture is one of the two or three most complicated words in the English language” (Williams, keywords. A Vocabulary of Culture and Society, 1976, p. 87).
A palavra cultura deriva do latim cultura, “cultivar ou cuidar o solo” e traduz os padrões de actividade humana e estruturas simbólicas que incutem um significado e importância a estas actividades. Representa também um conjunto de aprendizagens que quando englobadas num mesmo conceito expressam, o que chamamos ou entendemos como cultura. O académico Raymond Williams afirma: “Culture is one of the two or three most complicated words in the English language” (Williams, keywords. A Vocabulary of Culture and Society, 1976, p. 87).
Segundo o antropólogo Inglês Edward B. Tylor, a cultura é um complexo conjunto de características, tais como a sabedoria, as crenças, a arte, as leis, moralidades, costumes e quaisquer outras capacidades ou hábitos adquiridos pelo homem enquanto membro de uma sociedade. Seria negligente não mencionar que a palavra cultura abrange vários domínios e que cada leitor pode interpretar esta palavra de uma forma totalmente diferente daquilo que é pretendido. Para que isto não aconteça, o leitor é solicitado a encarar a cultura segundo os idealismos apresentados por (kuper and Kuper, 1985, p.27) que retrata a cultura como um conceito definidor de todas as actividades e vivencias de uma sociedade.
A palavra tradição deriva do latim traditio que significa transmissão, algo que é transmitido do passado para o presente. Podemos desta forma retratar a tradição como um conjunto de crenças de um povo que são seguidas e partilhadas sucessivamente durante várias gerações. Estes costumes, vivencias ou rituais são impulsionados pelo homem que transforma estes conceitos numa parte fulcral da sua vida quotidiana. A palavra tradição assume vários significados, como por exemplo quando usada num contexto institucional, tal como a tradição de Harvard ou tradição militar. Do mesmo modo, também pode surgir associada à Tradição Católica ou tradição religiosa. Na verdade o seu significado tanto pode abranger, como contrair novos significados quando referidos num contexto religioso: “We speak of the traditions of a school or of an organization: the traditions of Oxford or Harvard, of the army or navy, and equally of the different religious Orders or simply of certain families. We speak of national or regional traditions. In these examples the word “tradition” connotes something more than mere conservatism; something deeper is involved, namely, the continual presence of a spirit and of a moral attitude, the continuity of an ethos. We might even say that just as rites are the expression of a profound religious reality, so these traditions, which enshrine and safeguard a certain spirit, should comprise external forms and customs in such perfect harmony with this spirit that they mold it, surround it, embody and clothe it, so to speak, without stifling its natural spontaneity or checking its innate strength and freedom.” – in What is Tradition, by Yves Congar
O objectivo deste artigo é apresentar ou delinear a tradição como um conjunto de matérias, objectos, pensamentos ou qualquer outro género de costumes, que são transmitidos ao longo dos tempos. Podemos mesmo dizer que a “tradição” que iremos aqui abordar é aquela que toma um contexto puramente popular – a tradição dos costumes, hábitos e rituais de um povo.
Tradição e tradição – Convergências e Divergências
A religião faz parte não só da cultura de um povo como também da sua tradição e para provarmos esta convergência e aglutinação de conceitos, não seria necessário investir numa grande pesquisa, dada a sua evidência. Em Portugal muitas das festas Católicas saíram da esfera religiosa para ocuparem um lugar meramente tradicional e populista. Da mesma forma podemo-nos deparar com inúmeras situações nas quais a cultura sofreu uma transformação e se infiltrou não só na tradição, mas também na religião. Quando analisada nesta perspectiva, podemos determinar que a religião se baseia num conjunto de tradições acompanhadas por elementos culturais e não ao contrário. A própria igreja já faz uma distinção entre as várias formas de tradição.
A religião faz parte não só da cultura de um povo como também da sua tradição e para provarmos esta convergência e aglutinação de conceitos, não seria necessário investir numa grande pesquisa, dada a sua evidência. Em Portugal muitas das festas Católicas saíram da esfera religiosa para ocuparem um lugar meramente tradicional e populista. Da mesma forma podemo-nos deparar com inúmeras situações nas quais a cultura sofreu uma transformação e se infiltrou não só na tradição, mas também na religião. Quando analisada nesta perspectiva, podemos determinar que a religião se baseia num conjunto de tradições acompanhadas por elementos culturais e não ao contrário. A própria igreja já faz uma distinção entre as várias formas de tradição.
Nos documentos católicos a “Tradição” quando escrita com maiúscula, distingue-se de todas as outras tradições, na medida em que se refere aos eventos praticados pela igreja. Todas as outras tradições apesar de poderem ser reconhecidas pela igreja insinuam um valor inferior por não ser lhes ser reconhecida a devida autoridade canónica, o que implica a não aprovação das mesmas pela instituição católica. A “tradição” que carece de um estatuto autoritário, claramente católico, é sempre escrita com letra minúscula. “In both official Catholic documents and the writings of Catholic theologians, the word is now often written with a capital and in the singular as “Tradition.” This usage seems to be intended to distinguish authoritative “Tradition” from other tradition(s) which may exist or have existed in the Church, but which are not acknowledged as authoritative, or perhaps from those many local traditions which Vatican II recognized as valid, but whose precise status is not determined.“Authoritative” here means, of course, approved by institutionalized Church authority. There is another kind of authority deriving from the intrinsic truth of tradition and this will be a major theme in this article. Traditions lacking authoritative status, in the first sense, are designated as “tradition” with a lower case ‘t.’.” – in What is tradition? From Pre-modern to postmodern, Brian Johnstone
A própria Tradição católica pode ir além dos padrões estabelecidos e associados à tradição, chegando mesmo a incutir toda uma série de valores e costumes ritualistas de cariz tradicional, às leis religiosas fundamentadas no seu valor espiritual, elevando desta forma, a tradição, a um estatuto ligado à própria religião. Mas se o que se pretende é analisar a tradição como parte integrante da identidade de um povo, porque razão sublinhar estas questões de natureza puramente religiosa? A resposta a esta pergunta é simples e fácil de entender sobretudo depois de olharmos para rituais que celebramos enquanto nação e enquanto membros de uma sociedade extremamente religiosa. Mesmo sabendo que podemos diferenciar entre as várias formas de “tradição” e isolar aquela que pretendemos analisar, a verdade é que a tradição religiosa, ou simplesmente religião, afecta directamente as outras formas de tradição, sendo que elas são todas fruto das nossas crenças espirituais.
A Cultura Como Agente Identificador do Homem
A cultura está enraizada no mundo que nos rodeia e é perceptível nos livros que lemos, na comida que comemos, na música que ouvimos ou mesmo na roupa que vestimos. Desde da arquitectura e arte à linguagem e ao comportamento social, a cultura está presente no quotidiano de cada cidadão mesmo que não lhe seja imediatamente perceptível, permitindo que cada pessoa se possa relacionar em sociedade sem estar constantemente a estabelecer regras de convívio. Apesar destes indícios estaríamos errados ao pensar que a cultura só abrange estas esferas visíveis e facilmente identificáveis.
A cultura está enraizada no mundo que nos rodeia e é perceptível nos livros que lemos, na comida que comemos, na música que ouvimos ou mesmo na roupa que vestimos. Desde da arquitectura e arte à linguagem e ao comportamento social, a cultura está presente no quotidiano de cada cidadão mesmo que não lhe seja imediatamente perceptível, permitindo que cada pessoa se possa relacionar em sociedade sem estar constantemente a estabelecer regras de convívio. Apesar destes indícios estaríamos errados ao pensar que a cultura só abrange estas esferas visíveis e facilmente identificáveis.
Sabemos que a palavra cultura deriva de cultivar nomeadamente do cultivo da terra e tratamento de animais, mas a partir do séc. XVIII a cultura começou a estar associada à espiritualidade e avanços da sociedade e/ou humanidade. Mesmo hoje quando ouvimos falar de Cultura ou iniciativas Culturais estes idealismos estão sempre associados à ópera, teatro, literatura e arte. Mas hoje já existem várias subculturas que são usadas para identificar um grupo de pessoas a nível nacional ou internacional e que fazem parte da cultura global de um povo. Exemplos destas subculturas são a cultura gay, a cultura lésbica, black culture ou cultura negra e a cultura das drogas, entre outras. Com a evolução dos tempos a palavra cultura tem surgido, associada a vários grupos étnicos minoritários, sobretudo na Europa e com especial relevo para os Estados Unidos.
O sentido moderno da palavra cultura transcende quaisquer barreiras tradicionais, vendo agora o seu domínio associado a um conjunto de características étnicas ligadas às origens de cada povo, sendo, por exemplo, de especial interesse, a análise dos comportamentos das minorias étnicas face a uma nova cultura que as alberga, tanto na sua tentativa de integração, por um lado, como no esforço por manter as suas origens e identidade inalteráveis. A cultura é uma poderosa ferramenta humana de sobrevivência que está em constante mutação por ser fruto da nossa mente e expressão das nossas vivências, traduzindo-se na literatura, vestuário, arquitectura e mesmo nos governos e suas doutrinas políticas, que não são mais do que reflexos e/ou expressões da própria cultura. Podemos constatar que a cultura é entendida como um modo de identificação ou definição pessoal.
A cultura étnica agora engloba tudo aquilo que nós pensamos, fazemos e sentimos. Quando alguém fala na cultura Portuguesa, na realidade está a referir-se a um conjunto de características que definem o povo Português e que incluem a língua, as tradições, as crenças e a gastronomia entre outros. Conclusão – O que Define Um Povo? Após a leitura e análise do texto apresentado podemo-nos aperceber que existe uma separação entre cultura e tradição. No entanto, verificam-se pontos de convergência entre estes dois conceitos, na medida em que ambos se encontram em determinados momentos, vendo as suas esferas influenciadas mutuamente, por partilharem muitas das raízes que as formam. Assim podemos perceber que a tradição e a cultura são de uma certa forma, realidades culturais presentes no quotidiano de cada indivíduo de modo bastante evidente.
A tradição faz parte da cultura, porém esta ainda subsiste sem a tradição. Já o inverso não se verifica, ou seja, a tradição não sobrevive alienada da cultura por ser uma das características de determinados traços culturais do povo a que se refere. Quando apresentada desta forma, a cultura distingue-se como o derradeiro identificador humano, na medida em que as suas influências abrangerem tudo que o homem toca, pensa e faz. Não é de estranhar que deste modo, a cultura se tenha transformado num icon de ostentação e orgulho para muitas nações, modificando o seu estatuto e elevando-as de tal forma, que a celebração da cultura étnica já faz parte dos costumes de muitos povos, sobretudo daqueles que vivem longe da sua pátria. “Culture defines a nation and a country that does not respect its own culture is a country that is for sale.” Knowlton Nash
Porém, a celebração da cultura é um agente tão poderoso que por estar em constante expansão no seio das comunidades, também tem dado origem a um outro fenómeno que implica uma inevitável fusão de costumes e que tem vindo a alimentar os conceitos de Aldeia Global e Cidadãos do Mundo, sem, no entanto, promover a perda de identidade de cada povo. A celebração cultural faz parte da essência de cada povo, etnia e nação, da mesma forma que a tradição faz parte da cultura. Como o pivô de notícias da CBC Knowlton Nash proferiu: “… a cultura define a nação e um país que não respeita a sua própria cultura, é um país que está à venda”. Através da apreciação desta frase podemos realmente contemplar o lugar fulcral e importantíssimo ocupado pela cultura na sociedade pós-moderna. Sem ela uma nação não podia realmente existir, porque a sua essência está baseada na cultura e em tudo que dela provêm. Deste modo podemos finalizar e concluir que é a cultura e não a tradição que define um povo. Mas será que é a cultura a definir um povo ou um povo a definir a sua cultura?
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